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Os Peçonhentos March 2, 2006

Posted by milhouse in Capitalismo, Geral, Mercado.
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Por Luciano Pires*

Alguns conhecidos voltaram da China impressionados. Um determinado produto que o Brasil fabrica um milhão de unidades, uma só fábrica chinesa produz quarenta milhões… A qualidade já é equivalente. E a velocidade de reação é impressionante. Os chineses colocam qualquer produto no mercado em questão de semanas… Com preços que são uma fração dos praticados aqui.
Uma das fábricas está de mudança para o interior, pois os salários da região onde está instalada estão altos demais: 100 dólares. Um operário brasileiro equivalente ganha 300 dólares no mínimo. Que acrescidos de impostos e benefícios, representam quase 600 dólares. Comparados com os 100 dólares dos chineses, que recebem praticamente zero benefícios…
Hora extra? Na China? Esqueça. O pessoal por lá é tão agradecido por ter um emprego, que trabalha horas extras sabendo que nada vai receber…
Essa é a armadilha chinesa. Que não é uma estratégia comercial, mas de poder. Os chineses estão tirando proveito da atitude dos marqueteiros ocidentais, que preferem terceirizar a produção e ficar com o que “agrega valor”: a marca. Dificilmente você adquire nas grandes redes dos Estados Unidos um produto feito nos Estados Unidos. É tudo “made in China”, com rótulo estadunidense. Empresas ganham rios de dinheiro comprando dos chineses por centavos e vendendo por centenas… Mesmo ao custo do fechamento de suas fábricas.
É o que chamo de “estratégia preçonhenta”.
Enquanto os ocidentais terceirizam as táticas e ganham no curto prazo, a China assimila as táticas para dominar no longo prazo. As grandes potências mercadológicas que fiquem com as marcas, o design… Os chineses ficarão com a produção, desmantelando aos poucos os parques industriais ocidentais. Em breve, por exemplo, não haverá mais fábricas de tênis pelo mundo. Só na China. Que então aumentará seus preços, produzindo um “choque da manufatura”, como foi o do petróleo. E o mundo perceberá que reerguer suas fábricas terá custo proibitivo. Perceberá que tornou-se refém do dragão que ele mesmo alimentou. Dragão que aumentará ainda mais os preços, pois quem manda é ele, que tem fábricas, inventários e empregos… Uma inversão de jogo que terá o impacto de uma bomba atômica. Chinesa.


Nesse dia, os executivos “preçonhentos” tristemente olharão para os esqueletos de suas antigas fábricas, para os técnicos aposentados jogando bocha na esquina, para as sucatas de seus parques fabris desmontados. E lembrarão com saudades do tempo em que ganharam dinheiro comprando baratinho dos chineses e vendendo caro a seus conterrâneos…
E então, entristecidos, abrirão suas marmitas e almoçarão suas marcas.

*Luciano Pires é diretor de marketing da Dana e profissional de comunicação.

Comments»

1. Merklen Li - March 19, 2008

Acho que o Luciano Pires trouxe a tona alguns pontos interessantes quando ele publicou esse artigo em 2006 acredito eu.
Ele acertou na mosca quando disse que ajustes de preços realizados na China iriam morder os bolsos dos consumidores do mundo todo, pois as plantas fabris já estão na sua maioria aqui. Esse ano com certeza vamos sentir isso, através da desvalorização do dólar com relação ao yuan chinês, o aumento dos custos de matéria-prima, da inflação chinesa (mais alta em 10 anos) e os custos de mão-de-obra que já não são os mais baratos do mundo.
Também é verdade que tem muita gente utilizando de uma única tática comercial, comprar o mais barato possível na China e vender o mais caro possível no Brasil ou em qualquer outro lugar.
Porém, dizer que as empresas detentoras das marcas, tecnologia e design vão ficar sem alternativas para mim é ignorar muito do que se conhece em termos de estratégias administrativas hoje em dia, na teoria e na prática. É ignorar que um chinês que ganha os 100 dólares também quer usar Nike e falar num Motorola e não no equivalente chinês. É ignorar o fato de que as grandes empresas chinesas se sentem forçadas a comprar empresas estrangeiras, porque sabem que nunca poderiam escoar a mesma quantidade de produtos e com o mesmo mark-up sem o nome e a marca que essas empresas possuem. (Os exemplos são: IBM, Siemens Mobile, Rover, entre outros.)
Luciano que trabalha na Dana que fabrica auto peças, sabe que é fácil para um brasileiro pintar na China e encher o container de auto peças (e como tem gente fazendo isso), porque é um produto que o consumidor final geralmente não analisa a marca, não sabe qual a marca do eixo de transmissão, da embreagem do seu carro. Agora pergunte para qualquer pessoa do mundo se ele prefere andar de Cherry ou de Chevrolet e a resposta vai ser a mesma em qualquer lugar. Esse valor agregado, essa vantagem competitiva, os chineses ainda não aprenderam a copiar.